Traumatismo crânio-encefálico, a epidemia silenciosa


No Dia Mundial do Trauma, importa refletir sobre a relevância do Traumatismo Crânioencefálico (TCE), um importante problema de Saúde Pública, com impacto significativo na vida das suas vítimas e considerável repercussão em termos sociais e económicos. O TCE define-se como qualquer dano imposto ao cérebro e/ou crânio por uma força mecânica externa, na forma de impacto, esmagamento, penetração por projétil, ondas de choque ou outros.

Contextualizando em termos epidemiológicos e de acordo com diferentes estudos, o TCE representa a principal causa de morte e incapacidade nos adolescentes e jovens adultos e é a segunda maior causa isolada de incapacidade grave na população adulta (dados relativos a diferentes países, mesmo considerando diferentes níveis de desenvolvimento). Para além de sequelas neurológicas major em consequência de danos óbvios e significativos, acumula-se a evidência científica sobre a relação entre o TCE de menor intensidade, a denominada “concussão” (e.g. decorrente de atividade desportiva ou laboral) e posteriores transtornos de longa duração da função cognitiva, memória, equilíbrio e coordenação motora. Assim se compreende que muitas organizações institucionais/científicas e autores se refiram ao TCE como uma verdadeira “epidemia silenciosa”, de incalculáveis custos humanos, sociais e materiais.


Após o traumatismo inicial, o TCE induz diferentes fenómenos patológicos, como degeneração celular nas diferentes populações (neuronal, astrocitária, microglia), excitoxicidade glutamatérgica, perturbação da barreira hemato-encefálica, edema cerebral e neuroinflamação, que por sua vez determinam efeitos deletérios a longo prazo no contexto de dano secundário e correspondente perturbação das funções cerebrais superiores. Afetando principalmente adolescentes/jovens adultos e a população idosa, com as esperadas diferenças no respetivo perfil clínico, o quadro clínico do TCE abrange desde vítimas com sintomas minor (cefaleias, perturbações cognitivas ligeiras) e sem aparentes lesões cerebrais a doentes com lesões severas, com necessidade de intervenção neurocirúrgica, internamento em Unidades ultra-especializadas de Cuidados Neurocríticos e posterior reabilitação dirigida.


De momento, não existem protocolos terapêuticos eficazes no tratamento do TCE e as suas diferentes consequências, apesar do conhecimento científico estar, no que respeita aos mecanismos celulares subjacentes, em constante evolução. Dum ponto de vista translacional, a “ciência básica” permite responder a questões ao nível celular e molecular, contribuindo assim para o aprimoramento de possíveis terapêuticas dirigidas que bloqueiem mecanismos patológicos autossustentados e melhorem o respetivo outcome (“from bench to bedside”). O trabalho levado a cabo por diferentes grupos de investigação da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), em colaboração com o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), recorrendo a modelos animais e conjugando os achados laboratoriais com estudos clínicos em vítimas de TCE, é mais um exemplo da desejável complementaridade entre diferentes campos do Saber.


Importa assim conjugar o conhecimento científico em evolução com protocolos clínicos abrangentes e campanhas de prevenção e sensibilização dirigidas ao grande público, eventualmente focando-se em subpopulações específicas (e.g. atletas, idosos).



José Luís Alves

Neurocirurgião, CHUC

Professor Auxiliar de Neurocirurgia, FMUC


Fontes


Algethamy H. Baseline Predictors of Survival, Neurological Recovery, Cognitive Function, Neuropsychiatric Outcomes, and Return to Work in Patients after a Severe Traumatic Brain Injury: an Updated Review. Mater Sociomed. 2020;32(2):148-57.


Capizzi A, Woo J, Verduzco-Gutierrez M. Traumatic Brain Injury: An Overview of Epidemiology, Pathophysiology, and Medical Management. Med Clin North Am. 2020 Mar;104(2):213-238.


de Freitas Cardoso MG, Faleiro RM, de Paula JJ, Kummer A, Caramelli P, Teixeira AL, et al. Cognitive Impairment Following Acute Mild Traumatic Brain Injury. Front Neurol. 2019;10:198.

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