Mensagem de despedida da Irmã Inês




A Irmã Inês de Vasconcelos terminou o seu trabalho no CHUC, no passado dia 13 de Dezembro.


Deixou uma mensagem de despedida para todos os profissionais do CHUC:


Despeço-me, respeitosamente inclinada, de uma Casa que vivi e procurei servir durante os últimos 15 anos da minha vida. Casa esta que é apenas (e é tanto!) a multidão que ninguém consegue contar das pessoas que a fazem todos os dias, sem intervalos. O amor que aqui experimentei (permiti que destaque os doentes, entre tantos rostos de profissionais e familiares) foi-me enchendo muito suavemente o coração[1] e marcou a missão que aqui abracei. Muito grata, revejo em gestos discretos e espontâneos, em palavras sussurradas e choradas, em silêncios densos e em toques demorados, sentido para o que vivi com esta Casa de Hospitalidade e Humanidade. Que, por isso, foi e é chamada a ser Escola disto mesmo, para lá da técnica exímia, que exemplarmente aplica em favor das pessoas. Que cada um, ao seu nível de responsabilidade, prossiga a sua tarefa com renovado fervor, intensificando a união humana e de saberes nas respetivas equipas, opção que fará certamente com que esta Casa prossiga e intensifique o seu caminhar certo.


Vim trabalhar para o Hospital, para o Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa (SAER), assumindo ser rosto feminino numa equipa na missão que a Igreja Católica era aqui provocada a desempenhar. Partilhei, com entusiasmo, a passagem da perspetiva e modo de fazer da Capelania a SAER, nomeadamente na experiência fraterna de abertura à comunhão com irmãos de outras tradições religiosas e espirituais, já que na relação com o todo da Casa foi sempre neste espírito de abertura não proselitista que procurei viver. Não relativizei a minha identidade, que sempre afirmei, cruzando cada centímetro de chão, mas, sobretudo, investindo na demora junto de todas as vidas, respeitando a sua inviolabilidade, mas não elegendo pré requisito de nenhuma ordem para o diálogo. Visitei pessoas, não visitei católicos. E senti-me muito bem assim, com a convicção profunda interior [cristã] que era isso mesmo que a minha missão me pedia.


Vivendo o Hospital ‘de carne e osso’, tive o privilégio quotidiano de “cruzar a porta dos feridos”, entrando nas suas histórias e tocando as suas feridas, para pedir emprestadas palavras do teólogo checo Tomas Halik[2]. Aqui, como ele diz, foi-me concedida a oportunidade de “pelo diálogo recíproco, pela troca de experiências, alargar os horizontes pessoais, sempre necessariamente limitados, e, nesse diálogo com o outro, aprender igualmente a ” conhecer-me melhor a mim mesma.” Só me posso sentir grata. E como gostaria de conseguir agradecer isso a cada pessoa concreta!


Esta Casa feita de gente especial, tantas vezes erguida e suportada em lágrimas, ensina de modo muito marcado que “não tenho o direito de professar a fé em Deus, se não tomar a sério o sofrimento dos meus próximos.” Os frágeis, os periféricos, os silenciados, não são um lugar teórico, uma categoria sociológica, nem teológica, muito menos um número contabilizado estatisticamente. São pessoas! E o Hospital é Escola que ensina o cuidado humanizado com esta Humanidade ferida. E nesta Escola só se aprende fazendo! Muito obrigado pela oportunidade que me foi dada de fazer, acolhendo e provocando o meu gesto. Da simples presença à palavra, da guitarra ao mimo, como intuição minha ou resposta a uma solicitação… Pedindo, tantas vezes com lágrimas carregadas, a minha oração… Celebrando a vida, abraçada na fé, no reduto da capela, privilegiadamente situada como coração e alicerce dos andares que se sobrepõem uns aos outros.


É, ainda, com Tomas Halik, que prossigo, num texto que é inspirado no episódio bíblico de Tomé. “Confio e tenho a esperança de que [Deus] é a foz ou confluência definitiva também dos rios mais meândricos e tortuosos, que para ele se dirigem, ao fim e ao cabo (para lá de todas as fronteiras entre diferentes sistemas e culturas religiosas), os caminhos de todos os que, guiados pela luz das suas tradições, da sua ânsia de verdade, da sua consciência moral e do seu conhecimento, sinceramente, buscam e veneram o mistério último da vida.” Em cada final de dia, antes do descanso do sono, tenho por hábito colocar ao cuidado de Deus aqueles que se cruzaram na minha vida. Permiti que hoje o faça de novo, envolvendo doentes, famílias [vivos ou na Eternidade], assistentes operacionais, administrativos, vigilantes, administradores e profissionais de saúde com quem tive a graça de fazer caminho.


Ir. Inês Vasconcelos, SNSF

[1] Inspirado no texto “Despedida às Irmãs”, de Luiza Andaluz. [2] Tomas Halik, O meu Deus é um Deus ferido, Ed. Paulinas, 2015.

18 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

"A ADSE é hoje o maior e mais completo sistema voluntário de proteção na doença em Portugal. Este sistema acompanha os desafios gerais dos sistemas de saúde dos países de elevada renda: envelhecimento